domingo, 13 de setembro de 2009

Wagner Castro - No tom da canção cearense: do rádio e TV, dos lares e bares na era dos festivais (1963-1979)




Wagner Castro é cantor, compositor e professor de História da UFC. Assim como Pedro Rogério, escolheu como tema de seu mestrado a música cearense, que em boa hora também se transformou em livro. Wagner selecionou o período de 1963 a 1979 e fez uma profunda e completa pesquisa sobre os Festivais de Música realizados naqueles anos e como eles foram fundamentais no desenvolvimento e na divulgação dos cantores/compositores do Ceará. O livro é um verdadeiro tratado para quem deseja conhecer mais sobre a música cearense, assim como seus personagens principais. Ilustrado com muitas fotos, algumas cedidas pelos próprios artistas e outras pelo pesquisador Nirez, “No Tom da Canção Cearense: Do rádio e tv, dos lares e bares na era dos festivais (1963-1979)” foi lançado em 2008 pela Universidade Federal do Ceará e traz em suas 290 páginas muitas informações inéditas e interessantes sobre os artistas cearenses, assim como sobre todo o período focalizado.

Com um estilo muito leve de escrever e que flui tranquilamente, Wagner Castro torna seu livro uma experiência muito agradável para quem gosta da música cearense e quando se termina a leitura fica aquele gostinho de quero mais.

Vou reproduzir aqui o capítulo que ele denominou de “Considerações Finais” (págs. 269 a 272) e que vale como um resumo de seu excelente trabalho, fruto de uma pesquisa profunda e séria.

“A música popular cearense dos anos 50 trilhou o caminho romântico estilo seresta, sem grandes dissonâncias, até meados dos anos 60, na esteira do sucesso dos grupos vocais da era de ouro do rádio, formação de trios como os Vocalistas Tropicais e Trio Nagô, que alcançaram algum sucesso fora do Ceará com o nível técnico de gravação dos padrões do período. Alguns estudantes-músicos aventuravam-se nos caminhos reservados da Bossa Nova como Rodger Rogério e Petrúcio Maia.

O palco dessa renovação efetuou-se de forma simultânea no rádio, no teatro e na TV, criando independentemente, à revelia dos modelos impostos televisivos do sudeste, dando um caráter singular à Música Popular Cearense, composta de um forte teor poético e, quase sempre, sem refrão. Talvez essa seja sua estética, merecendo, portanto, um estudo mais detalhado. A preocupação “ideológica da canção”ou dos produtos culturais e a discussão sobre o nacional-popular ocorrem com a formalização do CPC em Fortaleza, em 1963, salientando ainda que eram parcos os seus componentes e recursos.
Nesse sentido, quando falo de MPB Cearense, refiro-me a essa música que nasceu dessa intercessão em meados dos anos 60.

Em meados de 60, em Fortaleza os jovens artistas geralmente oriundos da Universidade incorporavam ma Bossa Nova tardia, com suas especificidades locais, faziam canções, nos intervalos, nos campos universitários, nas casas e nos bares como lugar social da canção e organizavam-se em grupos, sem, contudo, vislumbrar ou ter em vista, pelo menos a curto prazo, o mercado fonográfico. Era um “bando de jovens”que compunham, cantavam e que vão sendo paulatinamente atraídos pela televisão.

Os jovens mais engajados politicamente pelo viés cepecista demarcaram a conotação de movimento ao grupo; enquanto outros artistas não tinham tal percepção ou aceitação. Mesmo com a visita de Geraldo Vandré à Fortaleza e seu encontro com o grupo Cactus e o Gruta, os jovens compositores não se envolveram, em suas composições, com a estética cepecista do artista. A reorganização musical cearense teria então duas balizas: uma, com o nascente Conservatório organizando festivais ; outra, com a nascente “Música Popular Cearense”, que buscava novas melodias e referências poéticas. Não havia nenhuma preocupação com a estética musical a seguir, mesmo com a referencia da Bossa Nova e do Tropicalismo. “Em 1969, o projeto nacional-popular não era mais dominante dos rumos musicais do país, seja pela força da repressão, seja pela força de novas tendências ligadas ao com universal.”

Por outro lado, como não havia seguido esse projeto nacional-popular, nesse mesmo ano,a “Música Popular cearense”, nos Festivais Nordestinos, mostra sua singularidade como tendência , e estilo próprio com letras mais verbalizadas na visualização da cidade, caso explícito da canção “Bai Bai Baião”, de Rodger Rogério; “Beira Mar” e “Terral”, de Ednardo. A música cearense terá nos Diários Associados, em seus programas de televisão e seus Festivais Nordestinos iniciados em 1969, sua experimentação, amadurecimento e o desejo de extrapolar a audiência em busca de novos mercados.

Mesmo com a avalancha midiática da Jovem guarda, nos programas da TV Ceará e com a universalização sonora do Rock, especialmente com os Beatles na indústria fonográfica no mercado brasileiro e com a ampliação do consumo de fonogramas, não houve de fato uma mescla desses elementos na “Música Popular Cearense”. E quando houve, essas novas tendências atingiram um ramo específico, os conjuntos de baile e outros que acompanham, em certas ocasiões, os jovens compositores.

Os anos de 67 e 68 são relevantes como marco da nova sonoridade, credibilidade, amadurecimento e consolidação para a música cearense, com o IV Festival da Música Popular do Ceará pela redefinição dos músicos antigos e jovens, marcando o início da carreira de Fagner. Destaque para a presença do grupo baiano, “Nós, Por Exemplo” em Fortaleza em 67, especialmente a forma de tocar de Gilberto Gil, que inspiraram jovens artistas, como Fagner. Contudo, a presença de Piti, o baiano do grupo, desgarrado, em Fortaleza com seus shows e participação no “Festival Aqui no Canto”” , provocará um encantamento nos jovens cantores e compositores, no que se refere à técnica e modo de tocar violão, na forma de compor, na desinibição,despertando também a idéia de profissionalização nos artistas locais. Por outro lado, o ano de 68 foi um marco na realização de forma criativa do I Festival da Música Popular Aqui, surgindo um novo cast de compositores, fornecendo aos ouvintes outras sonoridades e o inusitado, a gravação de um disco do Festival: o primeiro dessa nova “Música Popular Cearense”. Se o nível técnico de gravação, nacionalmente nesse período, estava longe do padrão internacional, em Fortaleza, só havia um estúdio de jingles, o Orgacine, onde o disco foi gravado, devido à determinação e competência de alguns, porém prensado no Rio de Janeiro.

A partir de 69, os Diários Associados organizaram os Festivais Nordestinos com eliminatórias em Fortaleza ea final em Pernambuco. Por terem uma ampla divulgação nos meios de comunicação dos Associados, notadamente na televisão que dava cobertura nas eliminatórias, serem festivais competitivos , com eliminatórias e premiação em dinheiro e pelo seu caráter midiático, atraiu os jovens compositores e cantores cearenses. Esses Festivais deram credibilidade e segurança para os jovens artistas e a percepção na qual, a inserção no mundo da música poderia mudar suas condições sociais.

Desse modo, com os Festivais organizados pelos estudantes e os Festivais Nordestinos realizados no final dos anos 60 e início dos anos 70, houve maior ampliação e aproximação entre os artistas, isso fica evidente no I Festival da Música Popular Aqui. Além disso, suas casas passaram não apenas a ser o local onde os jovens se encontravam para ouvir os discos que abarrotavam o mercado, mas onde discutiam política, namoravam e onde foram inspiradas e produzidas muitas canções.

Os bares, por sua vez, passaram a seduzir esses jovens artistas, não só para as conversas do cotidiano ou sobre política, mas também para entoar canções. Não apenas as casas e bares, mas ainda os grupos organizados pelos estudantes ampliaram as relações afetivas, resultando em parcerias que geraram canções antológicas dessa nova música cearense. Dessa tríade: Universidades, lares e bares nasceu o engajamento político dessa classe média de estudantes, notadamente com a chegada do CPC em Fortaleza, mas não teve tanta força como em Recife onde chegou a ter nome próprio, MCP (Movimento de Cultura Popular).

Dos espaços da Universidade em Fortaleza, dos lares, bares e encorajados nos programas “Porque Hoje é Sábado”e “Show do Mercantil”, esses artistas partem para o sul em busca do mercado fonográfico. Artistas consagrados, especialmente Elis Regina diante dessa sonoridade exposta nos festivais dos anos 60 e das circunstâncias do mercado passam a ver, nesses artistas oriundos do III e IV Festival Universitário da Música Popular Brasileira como Gonzaguinha, Ivan Lins, João Bosco e os cearenses Belchior e Fagner, novas possibilidades de interpretações, audiência e consumo diante de uma vertente social engajada principalmente o público estudantil, na luta pela abertura política. O circuito universitário ganhou outra dimensão, consolidando nomes como Ivan Lins e Gonzaguinha no MAU (Movimento Artístico Universitário). Nesse mesmo ano de 72, os cearenses com suas canções e letras e forma de cantar singular são atraídos pela indústria fonográfica.

Os artistas cearenses voltam-se às sonoridades nordestinas, especialmente de compositores piauienses e novos compositores cearenses como os irmãos, Caio e Graco e o pernambucano Alceu Valença, elaborando novas composições que se tornaram sucesso nacional, na voz de Fagner, Belchior e Ednardo ou na realização do Festival da Tabuba, uma espécie de “Woodstock cearense” em 1976, quando, a partir de então seria a vez dos cearenses sentirem o gosto amargo da censura sobre suas canções, especialmente Ednardo.

Por outro lado, vale ressaltar que os artistas cearenses já estavam inseridos na indústria cultural em meados e final dos anos 70; suas participações nos festivais nacionais televisivos , realizados pela TV Globo e TV Tupi, não revelaram impacto para o grande público nem relevância dos cearenses, no mercado fonográfico.

Em meados dos anos 70, outra leva de artistas cearenses moviam-se compondo e cantando em festivais, destacando-se os Festivais da Credimus, patrocinados pela Credimus financeira em Fortaleza. Sobressaiu-se, em particular, o I Festival do Jovem Compositor Cearense em 1978, de modo que os vencedores foram convidados para integrar o projeto cultural da “Massafeira”, idealizado por Ednardo, e o III Festival, chamado de Festival Credimus da Canção, ocorrido em 1980. Vale salientar que, depois de Fagner, Ednardo e Belchior nenhum cantor e compositor cearense conseguiu entrar na grande mídia, ao menos no que se refere à canção tida como MPB.

Ao tentar compreender as origens da musicalidade cearense dos anos 60 e 70 ou para alguns, música universitária cearense, tentando ressaltar as experiências de vida dos artistas, seus espaços de criação, a relação músico e música, abordando suas condições sociais, muita coisa ainda pode ser dimensionada e aprofundada. De minha parte, essa é a contribuição parcial e provisória acerca do conhecimento da música brasileira, em particular da “Música Popular Cearense”.

(Wagner Castro)
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